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domingo, 5 de setembro de 2010

Conhecimento tradicional da Floresta é Ciência? Sobre o uso de remédios da floresta.

A entrevista do Dr. Drausio Varella na revista Época (veja aqui) anunciando série de reportagens no programa Fantástico da Rede Globo é muito preocupante. É perigosíssima uma mensagem de que os remédios da floresta não são confiáveis chegando às populações das florestas desse país, populações que moram nas margens dos rios e que ficam muito distantes dos centros urbanos (de cidades do interior). Isso pode contribuir para empurra-los cada vez mais para a cidade, pode reforçar que o conhecimento deles não tem valor. A vida na floresta é possível devido a um grande conjunto de conhecimentos colecionados por séculos, dentre eles conhecimentos de cura por remédios naturais. Conhecimentos esses que estão sendo desvalorizados a cada reportagem dessa elaborada por "grandes doutores".

É muito complicada esse tipo de postura de que tudo deve ser "cientificamente" provado antes de seu usado, essa postura de que os remédios tradicionais não tem valor se não forem provados cientificamente. A lógica corrente é que há apenas uma forma de ciência, uma única "ciência oficial", a Descarteana, aquela que está nos livros e artigos científicos. Será que só existe essa ciência? E a ciência desenvolvida por décadas, séculos e até milênios muitas vezes passada de pai pra filho, oralmente, ensinada com palavras e demonstrações práticas por anos a fio, cujas verificações são feitas entre comadres e compadres, entre pajés, curandeiros e rezadores de diferentes comunidades e tribos? E essa ciência guardada por pessoas sensíveis, de intuição aguçada com o "dom" de acumular uma "biblioteca" inteira de informações na cabeça, incluindo uma grande gama de informações impossíveis de serem transcritas para qualquer papel? Essa ciência não vale só porque não está escrita e é desconhecida dos poucos "grandes" cientistas letrados de jaleco?

Fazem 10 anos que ando pela Amazônia trabalhando com comunidades tradicionais (através do NAPRA), nos últimos 4 anos morando em Altamira e trabalhando 100% do tempo com populações extrativistas e indígenas (Como consultor e através do ISA). A realidade que vejo nas comunidades pelas quais ainda é o uso constante de remédios da floresta, rezas e pajelanças para curar doenças. Por diversas vezes presenciei (e algumas vezes usei) esses remédios da mata, “receitados” por grandes doutores que sabem o que usar e quando usar. Aprendi a respeitar e admirar esse conhecimento particular, não sacramentado em papers ou revistas internacionais. Acredito que essas pessoas fazem ciência sim, pois o conhecimento que eles tem é fundamentado em pesquisa, experimentação, formulação de modelos e aplicação em diversos lugares simultaneamente, criando, da mesma forma que a ciência cartesiana, uma crença comum aceita e utilizada por inúmeras pessoas.

Negar a cultura tradicional só porque não a entendemos é muito perigoso não só para a manutenção dessas  populações das florestas como para a toda a biodiversidade em si. Por traz desses conhecimentos da medicina tradicional há muito mais do que conseguimos enxergar. Uma bela reflexão a respeito é apresentada em artigo de Washington Novaes entitulado  Da biodiversidade às florestas e pajés, reproduzido a seguir. Esse texto nos leva a outra dimensão no diálogo sobre a importância dos pajés não só para a saúde.

Sou totalmente a favor de se investimentos pesados na pesquisa da medicina tradicional e na interface dessas duas ciências, desde que uma não precise negar a outra para ser validada, como parece sugerir o Dr. Drausio Varela em sua entrevista. Temos que dar apoio e valorizar as populações das florestas para que possam escolher permanecer na floresta onde nasceram e se criaram, para que se fortalecem sem ter que migrar para a cidade, para que possam ter orgulho do conhecimento que aprenderam de seus antepassados e cuidem de passar esse conhecimento para os seus filhos. Quem sabe dessa maneira as crianças de hoje não se tornem os cientistas do futuro, reconhecidos como verdadeiros Doutores, mesmo sem certificados de papel, sem papers publicados e sem jalecos. (Marcelo Salazar, 5 de setembro de 2010)


Da biodiversidade às florestas e pajés
09 de abril de 2010, Washington Novaes - O Estado de S.Paulo

Neste Ano Internacional da Biodiversidade, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) traz boa notícia: o desmatamento e a conversão de áreas florestadas para a agropecuária caíram na década 2000/2009 para 13 milhões de hectares anuais (ou 130 mil km2, pouco mais de metade da superfície do Estado de São Paulo), ante 16 milhões de hectares anuais na década anterior. Mas complementa: ainda assim, o "ritmo de perda de florestas tropicais continua alarmante".

Brasil e Indonésia, diz o relatório da FAO, são os principais agentes desse desmatamento. E o estrago só não foi maior porque China, Índia, EUA e Vietnã plantaram 7 milhões de km2 anuais de florestas na década. Com isso, a perda líquida caiu de 8,3 milhões de hectares anuais, na década anterior, para 5,2 milhões de hectares anuais, na última. E a superfície florestal mundial ficou em 4 bilhões de hectares (ou 40 milhões de km2), cerca de 31% da superfície terrestre.

Os números do Brasil no relatório são fortes: 2,6 milhões de hectares anuais (ou 26 mil km2) desmatados em todo o País na última década, ante 29 milhões de hectares anuais na década de 90. E isso tem consequências graves, já que os 900 especialistas de 178 países reunidos pela FAO não hesitam em dizer que as florestas "têm um papel muito importante" na mitigação de mudanças climáticas, pois armazenam 289 bilhões de toneladas de carbono, mais do que já está acumulado na atmosfera e intensifica o efeito estufa. Sem a floresta, o carbono liberado irá para a atmosfera. E as florestas primárias atualmente representam 36% da superfície florestal total. Delas, 1% é atingido a cada ano por incêndios.

Por onde se poderia avançar na proteção das florestas e da biodiversidade? Está em curso uma discussão semelhante à que ocorre na área do clima, com muitos especialistas propondo a criação de uma entidade fora do âmbito da ONU, porque neste as decisões só são tomadas por consenso, e ele não acontece por causa das divergências entre países-membros. Desde a Rio 92, quando foi criada, a Convenção da Diversidade Biológica está empacada na discussão sobre a soberania dos países detentores da biodiversidade e a repartição de benefícios quando alguma espécie neles pesquisada é transformada em produto industrial patenteado em outro país. Enquanto não se avança, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) diz que um terço do 1,9 milhão de espécies já identificadas está em "situação crítica". Dos 34 "hotspots" (lugares mais ameaçados no mundo), 2 estão no Brasil: Cerrado e Mata Atlântica.

Detentor da maior biodiversidade planetária, o Brasil precisa prestar atenção a mais um relatório - Indigenous Lands, Protected Areas and Slowing Climate Change -, publicado pela PLoS Biology, com a participação dos pesquisadores brasileiros Britaldo Soares Filho (UFMG) e Gustavo A. B. da Fonseca (diretor de projetos no WWF/EUA). Diz o estudo que a proteção de áreas florestais, com a redução do desmatamento e da degradação, é uma das estratégias mais eficazes e de efeito imediato para enfrentar mudanças climáticas. Por isso, deve ser incorporada às estratégias para redução de emissões de gases poluentes. E, nesse contexto, a prioridade deve ser para a criação de áreas indígenas protegidas e unidades de conservação - que, além do mais, gera trabalho e renda para populações locais. Desde 2002, afirma o estudo publicado, o desmatamento na Amazônia foi 11 vezes menor nas áreas indígenas e unidades de conservação do que nas áreas não protegidas. O cálculo feito é de que até 2050 essas áreas indígenas e protegidas evitarão o desmatamento de 259 mil km2, mais que a área do Estado de São Paulo.

São informações importantes, na hora em que tantas objeções se levantam em certos setores contra a demarcação de áreas indígenas - quando elas são vitais para a conservação da biodiversidade (nossa melhor possibilidade de futuro) e o enfrentamento das mudanças climáticas. Mas há uma questão adicional que pede muita atenção de estudiosos e dos próprios indígenas: o problema da educação nas aldeias.

Há poucos dias, uma comissão de índios de Roraima entregou ao governo do Estado minuta de projeto para a criação da carreira pública de professor indígena - em que o candidato precisará ser indígena, ter aprovação da comunidade, morar na aldeia e ter capacidade de implantar o ensino bilíngue. Nesse último ponto pode estar um complicador, que exige discussão e reflexão.

Nas andanças pelas aldeias do Parque Indígena do Xingu e áreas vizinhas, em todas o autor destas linhas ouviu dos chefes mais velhos e experientes que "o ensino bilíngue é que está acabando com a nossa cultura". Porque, na visão deles, ao aprenderem português, as crianças e jovens passam a ver televisão e conviver com as culturas de fora. A partir daí, querem viver como os jovens brancos, consumir o que estes consomem e não querem mais viver como índios. Mais grave, não querem ser pajés, porque o caminho para ser pajé é longo, difícil, cheio de sacrifícios e riscos, abstinências, etc. Mas, naquele mundo regido por espíritos - cada árvore, cada animal, tem um espírito regente -, se não houver pajés, que fazem a intermediação entre ele e o cotidiano, a cultura tradicional desaparecerá, pois todos os cantos, as danças, os rituais e modos de viver são relacionados com espíritos. O número de pajés em cada aldeia já diminuiu drasticamente. Há aldeias já ameaçadas de ficar sem nenhum.

É complicado, pois impedir o contato com culturas de fora já é impossível. Mas como preservar, sem pajés, as culturas tradicionais e seus valores políticos e sociais, além do meio ambiente, tão importantes? É uma discussão a que não se pode mais fugir. Faz parte, na verdade, da discussão sobre as estratégias nacionais mais importantes.


Veja aqui também a resposta do Dr. Douglas Carrara a entrevista do Dr. Dráuzio Varella

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